A estupidez e o ruído estão a vencer o saber e a inteligência
Lembro-me, em miúdo, de estar num café com o meu pai e perguntarem-lhe se preferia ter um filho médico ou jogador de futebol. Ele respondeu, sem hesitar: “médico”. Hoje, estou convencido de que, se fizessem a mesma pergunta a um qualquer pai, a resposta mais provável seria: “jogador de futebol”.
É verdade que, hoje, a diferença de cultura geral entre um médico e um jogador de futebol não é tão abismal como naquele tempo. Porém, o que mudou verdadeiramente o centro das ambições dos pais – e dos próprios filhos – foi o mediatismo e o dinheiro, remetendo a cultura para um plano secundário. E isso tem repercussões graves: na eleição de gente mal formada para cargos políticos e na crescente desautorização de quem estudou e se preparou, como médicos e professores — profissões que não se exercem eficazmente sem autoridade moral ou académica.
A estupidez, filha da ignorância, instalou-se na sociedade. E a sociedade passou a premiá-la como se fosse uma virtude. Quem a tem exibe-a como um troféu.
Vivemos numa era em que a informação nunca foi tão abundante e, paradoxalmente, é a estupidez que tem mais palco e aplausos. O conhecimento está à distância de um clique, mas os algoritmos empurram-nos para vídeos curtos, títulos em letras gordas e debates onde ganha quem grita mais alto. A inteligência e o saber já não seduzem. O ruído — outro filho da ignorância — esse sim, entretém, fideliza, viraliza.
Os media e as redes sociais alimentam estes monstros. Em nome das audiências, promovem especialistas de ocasião, opiniões simplistas, certezas absolutas, frases feitas, humor raso e indignação sem fundamento. Tudo o que exige tempo, leitura, contexto ou reflexão… não tem tração. Não gera likes. Não vende. E, pior ainda, já nem é admirado.
O problema maior está na forma como nós, enquanto sociedade, passámos a premiar o raciocínio fácil e a punir o pensamento complexo. Basta ver quem lidera as audiências ou quem é idolatrado. O pensamento estruturado é visto como elitismo. O vocabulário mais elaborado, como arrogância. A dúvida, como fraqueza.
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O saber passou a ser quase um obstáculo. O resultado? Um empobrecimento do discurso público e a normalização da mediocridade.
Mas a consequência mais grave desta “estupidificação” social não é apenas estética ou cultural, é política. Porque um povo que despreza a inteligência é presa fácil de discursos simplistas, extremismos, populismos e desinformação. A ignorância é o terreno fértil onde germinam as ideias que reduzem o mundo a “nós e eles”, “bons e maus”, “verdade e mentira”.
O saber e a inteligência já foram aspiracionais. Hoje, são algo a evitar. Como se pensar desse trabalho a mais. Como se fosse mais “cool” ser irónico do que informado. Mais “viral” ser raso do que profundo.
Mas a inteligência e o saber — geradores de conhecimento — não desapareceram. Estão aí, nos livros que poucos leem, nos professores mal pagos, nos jornalistas ignorados, nos cientistas abafados. A pergunta é: até quando vamos fingir que não precisamos do conhecimento?
Porque, se a estupidez e o ruído continuarem a ser promovidos como virtudes, um dia, os sobreviventes deste novo modelo social, pagarão um preço altíssimo: não saberão sequer que existiu o Homo sapiens!
https://minhodigital.pt/autor/damiao/
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