Artigo de hoje no Observador.
https://observador.pt/opiniao/redistribuir-o-vazio/
𝗥𝗲𝗱𝗶𝘀𝘁𝗿𝗶𝗯𝘂𝗶𝗿 𝗼 𝘃𝗮𝘇𝗶𝗼.
[Enquanto não criarmos riqueza, estaremos apenas a partilhar o nada com um ar piedoso e um sorriso de mentira]
Enquanto não acertarmos, não aceitarmos com a humildade que custa, com a vergonha que arde, com a verdade que não se diz alto para não ofender os ouvidos sensíveis dos técnicos superiores e das consciências delicadas dos economistas de carreira, que em primeiro lugar, em primeiro, como quem diz antes de tudo, antes mesmo de pensarmos em escolas ou em hospitais ou em auto-estradas ou em discursos na televisão com bandeirinhas atrás e legendas a correr no fundo como lágrimas, temos de criar riqueza, criar mesmo, como se cria um filho, com trabalho, com noites mal dormidas, com medo, com fé, com dor, com aquela dignidade triste dos que ainda acordam cedo para abrir portas, para pagar contas, para inventar soluções de manhã e engolir frustrações ao jantar, enquanto isso não for evidente como o sol que nos queima a nuca nas filas onde aguardamos cada vez com menos paciência, não vamos a lado nenhum. Ou pior: vamos para trás. Devagarinho. Com um sorriso.
Porque a verdade é que neste país se fala de redistribuição como quem fala de caridade numa procissão. Dá-se com pose, com ar de magnanimidade, com aquele paternalismo fingido de quem nunca passou fome nem teve de decidir entre pagar a renda ou levar os filhos ao médico. Fala-se de distribuir como se distribuir fosse o mesmo que criar. Como se partir um pão ao meio fosse fazer nascer um segundo. Como se os números nas folhas do Governo fossem trigo. E não são. São cinza.
Os que mandam, os que se sentam em cadeiras forradas, em prédios altos com vista para o mar ou para os jardins, confundem a realidade com o desejo. Acham que por desenharem uma tabela com “medidas para o crescimento” já estão a construir fábricas. Que por escreverem “emprego jovem” num plano de acção qualquer já estão a salvar um rapaz de vinte anos que todos os dias vê o pai a encolher-se no sofá, com os olhos perdidos na televisão e o corpo cansado de uma vida sem futuro.
E é por isso que não criamos nada. Não porque sejamos estúpidos. Não porque sejamos preguiçosos. Mas porque nos ensinaram a desconfiar de quem tenta. De quem arrisca. De quem falha. Porque neste país não se falha, morre-se. Morre-se socialmente, financeiramente, politicamente. Quem tenta é olhado de lado. Quem empreende é suspeito. Quem lucra é ladrão. E depois perguntam-se por que razão não há mais inovação, mais investimento, mais ambição. Como se a culpa fosse do povo. Como se as pessoas comuns tivessem alguma coisa a ver com as teias viscosas de autorizações, licenças, pareceres, alvarás, taxas, coimas, subsídios e impostos, essa floresta obscura que o Estado planta à volta de cada ideia como se tivesse medo que crescesse.
O Estado não é pai. O Estado não é mãe. O Estado, na melhor das hipóteses, devia ser jardineiro. Regar, tirar as ervas daninhas, deixar crescer. Mas não: aqui o Estado é dono da horta, dono das sementes, dono da água, dono do sol, dono da sombra. E depois admira-se que ninguém plante nada. Ou que só cresçam ervas velhas e resistentes, habituadas a sobreviver com pouco e a viver daquilo que os outros largam.
E ainda assim querem distribuir. Não se percebe bem o quê. Talvez o ar. Talvez os slogans. Talvez a esperança que ainda sobra em quem não aprendeu a desistir. Mas riqueza, não. Porque para isso era preciso que alguém a criasse. E quem a cria, neste país, é visto como um problema. Uma ameaça. Um desafio ao monopólio da virtude pública.
Enquanto isso, a redistribuição continua. Redistribui-se miséria. Redistribui-se desencanto. Redistribui-se dívida. Redistribuem-se fundos com prazo de validade e cheiro a Bruxelas. Redistribui-se a ilusão de que se pode continuar assim. E continuamos. Como um doente que recusa o diagnóstico e pede mais analgésicos.
Criar riqueza não é um pormenor técnico. É uma obrigação moral. Uma condição da liberdade. Uma exigência de respeito por quem trabalha. Por quem tenta. Por quem não quer viver eternamente da bondade do Estado nem da caridade dos programas. Por quem sabe que dignidade não se compra com transferências. Conquista-se. Dia após dia. Em silêncio.
Mas isto não se ensina nas escolas. Não se diz nos debates. Não se ouve nos telejornais. Fica-se pela superfície. Pela espuma. Pelo jogo de espelhos onde tudo parece funcionar, desde que não se olhe demasiado de perto. Desde que não se mexa. Desde que não se pergunte.
Criar. Depois distribuir. Como quem constrói primeiro a casa antes de decidir onde pendurar os quadros. Qualquer criança percebe isto. Mas neste país, o poder já não percebe nada. Ou talvez perceba. E tenha medo. Medo de que se perceba que o rei vai nu, que a redistribuição é um teatro, que a riqueza não nasce nos gabinetes nem nas conferências nem nos conselhos de ministros. Nasce no campo, na loja, no estaleiro, no atelier. Nasce no risco. E o risco, como se sabe, não se redistribui. Assume-se.
E enquanto não acertarmos nisto, continuaremos a cair. Com papéis na mão e ar de quem sabe para onde vai. Até o chão nos ensinar o que o bom senso já devia ter dito há muito. Mas talvez seja tarde. Talvez só restem discursos. E o eco deles.
Julho 2025
Nuno Morna
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