Quando a cidade já não parece tua
Houve um tempo em que passear pela nossa cidade era um gesto natural de pertença. Caminhávamos pelas ruas não apenas para as atravessar, mas para as viver observando o quanto eram acolhedoras na sua idiossincrasia, essa identidade própria que também ajudávamos a construir. Tornávamo-la única porque nela encontrávamos os amigos, os conhecidos, os vizinhos. Em cada esquina estavam impressos os nossos hábitos e costumes; em cada porta aberta, um rosto familiar. Os espaços comerciais eram mais do que locais de compra: eram pontos de encontro, de conversa demorada, de distração partilhada. As lojas faziam parte da nossa vida. O atendimento era extensão da nossa cultura, e as montras refletiam quem por ali passava. Havia história nas fachadas e memória nos interiores lugares que fizeram do passado o que foi o nosso presente e que hoje parecem já não reconhecer-nos. A pouco e pouco, esses espaços desapareceram das nossas rotinas, como desaparecem aqueles que amamos. No seu lugar, multiplicam-se lojas de souvenirs, muitas vezes quase vazias, atendidas por trabalhadores vindos de outras paragens, na sua maioria asiáticos. Proliferam também óticas e lojas de aparelhos auditivos como se, simbolicamente, a cidade nos dissesse que estamos cada vez mais cegos e surdos ao que realmente importa. Com o crescimento do turismo, a cidade transformou-se profundamente. Entramos numa loja e somos abordados em inglês; por vezes, nem a língua portuguesa ecoa já nas esquinas onde antes se pediam esmolas. Sente-se uma estranheza difícil de explicar como se a cidade que conhecíamos tivesse morrido silenciosamente. Para onde caminha o Funchal, outrora tão português, tão madeirense, tão nosso? Quem nos visita encontra aqui o mesmo que encontra na sua própria terra. Pode comer uma pizza como em Itália, um croissant como em Paris, entrar num pub como em Londres. Mas torna-se difícil provar uma sandes de bife de atum, um filete de espada com cebolada ou umas cavalas com molho de vilhão. Ainda se encontra, é certo, a sandes de carne de vinho e alhos sem ter de esperar pelo Natal ou um bolo do caco com manteiga de alho ou chouriço, tantas vezes já industrializado, como símbolo apressado de uma identidade simplificada. Talvez a cidade não tenha morrido. Talvez esteja apenas a transformar-se. Mas fica a pergunta: conseguiremos preservar o que nos tornava únicos enquanto abrimos as portas ao mundo? Ou acabaremos por nos tornar apenas um cenário bonito, onde a memória resiste apenas na saudade de quem ainda se lembra?
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