terça-feira, 21 de abril de 2026

50 ANOS DE AUTONOMIA OU DE HEGEMONIA PSD?


Analisando de forma simples e sintetizada a relação entre 52 anos de democracia em Portugal e 50 anos de autonomia das regiões, mais concretamente o caso específico da Região Autónoma da Madeira, dir-se-ia, como alguém já afirmou um dia, que seria um verdadeiro caso de estudo sociopolítico compreender a razão pela qual um único partido se eterniza no poder.                                                     As razões que levaram a que isto tivesse este desfecho devem-se, sobretudo, ao facto de que, tal como a maioria do povo português, existia uma fragilidade de cultura democrática, quase inexistente, devido a mais de uma geração ter vivido sob um regime autoritário de cariz conservador e nacionalista. Depois do golpe de Estado, a esquerda que inicialmente orquestrou a transição catalogou esse regime como fascista de extrema-direita, criando uma psicose antirregime que teve muito de positivo, mas também excessos de repressão, muitas vezes contra cidadãos inocentes. São realidades que não se podem escamotear, mas um dos propósitos de então foi anular toda e qualquer reestruturação da esquerda socialista e comunista, podendo assim classificar-se o regime do Estado Novo como essencialmente anticomunista.                                                                                                                                           Mas a razão que levou a que, na Madeira, fosse de certa forma «fácil» a implementação da democracia resultou do fator anteriormente exposto, aliado à submissão à Igreja e à estratégia política de então em continuar a diabolizar o socialismo e o comunismo. Lembro-me, na altura, estando emigrado, quando vim de visita à região em 1976, de ouvir nas zonas rurais a seguinte frase: "Credo, cuidado que o comunismo já chegou à cidade!"                                                                                                                 A conotação política criada num vínculo, de certa forma estratégico, entre a diocese e a classe política de então abriu caminho para tudo o que veio depois. Para a extrema-esquerda, tudo é feito por perceções, enquanto aquilo que a direita faz, visto na sua perspetiva, é rotulado como imposição, ditadura, fascismo, racismo e extremismo chavões utilizados para intimidar e confundir as populações. É a velha técnica: antes que te chamem, chama-lhes tu primeiro. Só que, a cada dia que passa, essa técnica cola menos.                                                                                                                             Felizmente, já muita gente começa a perceber que, afinal, aquilo que foi feito ao longo destes anos foi, em grande medida, a manipulação de mentalidades e o incutir do medo da extrema-direita. Na Madeira, a implantação do PSD como força dominante deu-se no sentido inverso: o «bicho-papão» em 1976 era o comunismo, e a salvação era o PSD, personificado no «Messias» político Alberto João Jardim. Com o apoio da Igreja e o patrocínio de D. Francisco Santana, foi relativamente fácil ao carismático e regionalista Alberto João Jardim conquistar e perpetuar-se no poder.                                                Criou-se uma dependência do Estado (técnica associada ao socialismo) e uma elite governativa (técnica associada ao liberalismo), ficando o restante por conta de quem, até aos dias de hoje, controla o poder, enquanto muitos cidadãos se sentem com um dever de gratidão por tudo aquilo que foi feito na região ao longo de 50 anos. Mas afinal, não será essa a verdadeira missão e o dever da classe política: melhorar as condições de vida dos madeirenses? Pena é que, em 50 anos, se tenha gasto tanto e financeiramente beneficiado tão poucos.                                                                                           Porque o conceito de autonomia, teoricamente, seria o de poder fazer algo com responsabilidade própria, sem precisar de alguém que decida por ti. Coisa que, na Madeira, muitos consideram não ter acontecido: os sucessos governativos são apresentados como êxitos do Governo Regional, enquanto os insucessos as culpas são atribuídas a Lisboa. E assim andamos há 50 anos com este peso nas costas do público.                                                                                                                                                         Muita coisa foi feita ai de nós se assim não fosse. Mas será que, com uma gestão mais rigorosa e criteriosa, e com um planeamento de melhor visão estratégica, se poderia ter feito ainda melhor, mesmo que fosse sob a hegemonia dos mesmos de sempre?                                                                               Fica aqui uma questão que cada um, de forma livre e democrática, retirará as suas próprias ilações. 


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