sexta-feira, 24 de abril de 2026

           SUCESSOS E FRACASSOS DO 25 DE ABRIL

Depois de um período em que o país era considerado de elevado nível de analfabetismo cerca de 60% da população era analfabeta no início do Estado Novo e, no final da década de 60, essa percentagem ainda rondava os 25% uma das prioridades após o 25 de Abril foi precisamente a redução desse flagelo.

Bem ou mal, esse objetivo foi sendo alcançado. No entanto, importa questionar: será que os resultados obtidos corresponderam verdadeiramente às necessidades do país? Convenhamos que hoje temos muito mais portugueses com formação académica, mas isso não significa necessariamente que tenham sido atingidos os objetivos, ou melhor, os propósitos de responder às reais necessidades das populações.

Na área da saúde, por exemplo, o número de médicos e enfermeiros talvez tenha duplicado, e a esperança média de vida aumentou, o que naturalmente exige mais profissionais. Porém, o que aconteceu foi que formámos muitos desses técnicos que, devido à fraca valorização profissional e salarial, foram obrigados a emigrar, perdendo-se assim grande parte do investimento realizado. Nessa área, ficámos aquém das necessidades, essencialmente por falta de planeamento e de valorização adequada.

Em contrapartida, assiste-se atualmente a uma gritante falta de profissionais ligados à construção civil, como pedreiros, carpinteiros, eletricistas, pintores e serralheiros civis, entre outros. Nos últimos anos, a escassez de trabalhadores nestas áreas tornou-se por demais evidente.

Uma das situações que poderá ter contribuído para essa falha foi a ausência de planeamento estratégico na definição de prioridades, bem como a redução ou eliminação de escolas profissionais e a diminuição do rigor na avaliação individual dos estudantes. Criaram-se, assim, facilidades no acesso ao ensino superior, ao mesmo tempo que se reduziram os incentivos e a motivação para a escolha de profissões técnicas e profissionais, particularmente nas áreas ligadas à construção civil.

Basta pensar que, atualmente, por exemplo, existem advogados a receber cerca de 2.800 euros mensais, após um investimento na sua formação que pode atingir, em média, 15 mil euros anuais, enquanto ajudantes de pedreiro podem auferir cerca de 3.500 euros mensais com apenas 12 anos de escolaridade. Sem menosprezar qualquer profissão, este cenário seria impensável há alguns anos.

O grande erro do pós-25 de Abril, se assim se pode dizer, foi nunca termos conseguido consolidar uma classe política com planos consistentes para o país a médio e longo prazo. Muitas vezes, a ação política concentrou-se em governar para resultados eleitorais imediatos, e esse poderá ser, de certa forma, um dos fatores que explicam algumas fragilidades da nossa democracia.

Ainda assim, a responsabilidade não deve ser atribuída à democracia em si, mas antes à qualidade da gestão e das decisões tomadas pelos responsáveis políticos ao longo das décadas.

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