sexta-feira, 24 de abril de 2026

 **E se o 25 de Abril não tivesse acontecido?**


Perante as reflexões anteriores sobre educação, planeamento e falta de profissionais em áreas essenciais, surge inevitavelmente uma pergunta provocadora: **onde estaria Portugal hoje se não tivesse ocorrido o fim da ditadura e a Revolução do 25 de Abril?**


É muito provável que Portugal tivesse continuado, durante mais tempo, com elevados níveis de analfabetismo, atraso económico e fraca mobilidade social. O acesso à educação era limitado, as oportunidades concentravam-se em poucos e o país mantinha-se afastado das grandes transformações sociais e tecnológicas que marcaram a Europa nas últimas décadas do século XX. A liberdade de expressão, a participação política e os direitos dos trabalhadores seriam certamente mais restritos.


Importa também recordar que, mesmo sendo amplamente condenada como modelo político, a governação do Estado Novo deixou um legado frequentemente citado por muitos portugueses: a construção de uma escola em praticamente cada freguesia, um centro de saúde em cada concelho, um hospital em cada distrito e um aeroporto em várias cidades. Tudo isto foi realizado essencialmente com receitas fiscais internas, com níveis de impostos muito inferiores aos atuais e, segundo muitos relatos históricos e testemunhos da época, com rigor no cumprimento de prazos e orçamentos, sem dependência significativa de ajuda externa.


Alguns dados históricos ajudam a contextualizar esse período e a evolução posterior do país:


* Em 1970, a taxa de analfabetismo em Portugal rondava os **26%**, uma das mais elevadas da Europa Ocidental.

* A esperança média de vida era de cerca de **67 anos** em 1970; hoje ultrapassa os **81 anos**.

* Em 1960 existiam cerca de **30 mil estudantes no ensino superior**; atualmente são mais de **400 mil**.

* Quando Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia, em 1986, o rendimento por habitante era cerca de **55% da média europeia**; hoje situa-se próximo dos **75% a 80%**.


Estes números mostram que houve progressos significativos, mas também evidenciam que o desenvolvimento do país foi desigual e, muitas vezes, marcado por decisões sem visão estratégica de longo prazo.


Contudo, reconhecer os méritos da democracia não impede uma análise crítica ao caminho seguido depois dela. O país ganhou liberdade, escolaridade e melhores condições de vida, mas nem sempre soube transformar esses ganhos em planeamento estratégico e desenvolvimento equilibrado. Em muitos momentos, privilegiou-se a quantidade em detrimento da qualidade, formando-se profissionais sem uma visão clara das necessidades futuras da economia e da sociedade.


Se a ditadura tivesse continuado, talvez houvesse maior controlo centralizado e algum tipo de planeamento mais rígido, mas dificilmente teria existido a prosperidade, a modernização das infraestruturas, o acesso generalizado à saúde e à educação, ou a integração europeia que hoje conhecemos. Por outro lado, a democracia trouxe novos desafios: expectativas elevadas, decisões políticas condicionadas por ciclos eleitorais e, por vezes, falta de continuidade nas políticas públicas.


Assim, a verdadeira questão talvez não seja se o 25 de Abril deveria ou não ter acontecido — porque a liberdade e a dignidade humana não são negociáveis — mas sim **o que fizemos com essa liberdade**. O problema não foi a mudança de regime, mas a incapacidade, em certos períodos, de planear o país com visão de longo prazo e de alinhar a formação das pessoas com as necessidades reais da sociedade.


O futuro de Portugal continuará a depender menos do passado e mais da capacidade de aprender com os erros, valorizar todas as profissões e governar com responsabilidade, pensando não apenas no presente, mas nas próximas gerações.


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